domingo, 14 de julho de 2013

Os EUA comparados a Dinamarca em qualidade de vida

Edição 1867 de 17 a 23 de abril de 2011
Rafael Jardim
EUA ou Dinamarca: qual é o modelo ideal para o Brasil?
Desde o século XIX, o Brasil, sobretudo membros da elite, alimentou certo fascínio pelos Estados Unidos. Talvez porque os dois passaram por processos semelhantes, desde a colonização até a interiorização. O fato concreto é que, não raras vezes, isso nos prejudicou. Ainda assim, esse fascínio continua. Hoje, com relações comerciais melhor distribuídas pelo mundo, e consequente redução da participação dos EUA em nossa balança comercial, não tenho a conta de quantas vezes li na Veja que esse caminho atual está errado e que, basicamente, quanto mais amigos deles, melhor seria para nós.
Penso que nossa história recente nos mostra o contrário. É positivo que tenhamos boas relações comerciais e políticas com os norte-americanos, mas é ainda melhor construir sólidas relações com um número cada vez maior de nações, distribuídas em todos os continentes. Essa política, inclusive, contribuiu para que o Brasil firmasse sua posição como líder mundial incontestável.
Pois bem: não irei focar aqui questões como comércio e diplomacia. Quero questionar o fato de que esse fascínio pelos EUA se reflete, em muitos (incluindo governantes), em uma tentativa de alçar aquele país à condição de “modelo ideal” para o Brasil. E quero propor uma alternativa.
No fim dos anos 90, morei quatro anos nos Estados Unidos. Conheci um país interessante, bonito, bem misturado, e que tem se adaptado relativamente bem ao fato de que, cada vez mais, milhões de pessoas de dezenas de países têm transformado gradualmente sua cultura e costumes. Conheci, porém, um país com uma cultura de competição quase doentia. Um lugar de winners – como Charlie Sheen, ironicamente – e losers. Vi um povo que tem absoluta ojeriza a pagar impostos, e que não sabe ou finge não saber porque eles existem. Um povo que, estranhamente, só apoia pagar impostos quando é para gastar ainda mais com segurança.
Deparei-me, nos EUA, com uma tal palavra “liberdade”, cujo significado é completamente diferente do que em qualquer outro país do mundo. Lá, a liberdade é para não estar nem aí, ou para enriquecer de maneira incontrolada e irresponsável. E foram várias as vezes que vi brigas de crianças na escola serem justificadas com um “it's a free country” (aqui é um país livre). Lá, a liberdade não termina quando começa a do próximo. Por esse motivo, vemos uma situação em que todos acham que a possuem, mas apenas alguns chegam a, de fato, usufruir dela. 
O mais importante é que me deparei com um país que não tinha (ainda) nenhum tipo de sistema público de saúde, e que não estava muito preocupado com as camadas mais pobres. Uma sociedade em que a maioria de seus indivíduos, ao se isentarem por completo pelos problemas dos outros, se recusam a gastar o seu próprio dinheiro para ajudá-los. A não ser quando celebridades se juntam em programas passageiros de caridade, como para o Haiti. Ajudar, só quando é “cool”, ou quando aquele cantor que você admira lhe faz chorar emocionado ao mostrar a foto de uma criança em sofrimento.
Por tudo que expus acima, não posso concordar com a ideia de que os Estados Unidos devem ser a nossa referência de país. Temos vários modelos melhores. Como considero que o problema mais grave do Brasil continua sendo a desigualdade social, ainda mais agora que somos a sétima economia mundial, proponho a Dinamarca como nosso “modelo ideal”, uma vez que é o país com menor desigualdade social do mundo, segundo o Índice de Gini calculado hoje pela ONU.
O Índice de Gini foi desenvolvido há quase 100 anos e mede o nível de desigualdade de renda. Ele varia de 0 a 1, e quanto mais próximo de 1, mais desigual, e quanto mais próximo de 0, menos desigual. O Gini dinamarquês oscila entre 0,23 e 0,25. O brasileiro estava, em 2008, em torno de 0,54 (já chegamos a ter 0,67). O dos EUA é de 0,46, considerado alto pela ONU.
Essa diferença entre o índice na Dinamarca e nos Estados Unidos tem uma origem muito clara. Reflete preferências ideológicas antagônicas. No país escandinavo, a defesa da presença do Estado chega a ser cultural. Já para os norte-americanos, é comum o pensamento de que o Estado serve para tirar o dinheiro das famílias. Não é coincidência que a carga tributária da Dinamarca é a maior do mundo, com 48%. Nos EUA, por sua vez, essa carga é de 27%. Convenhamos, para quem não acha o Estado tão necessário assim, é um valor considerável. Para comparar, nossa carga tem oscilado entre 34 e 35% do PIB.
Na Dinamarca, o sistema de saúde é universal, gratuito e, como tudo por lá, equitativo. O gasto do usuário é praticamente apenas com medicamentos, com pequenas exceções. Ainda assim, o subsídio do Estado é de mais de 50%. E quem não pode, não paga, ou é reembolsado. Tudo isso, por incrível que pareça, gastando menos de 9% do PIB com saúde. A educação não é diferente. A ampla maioria dos alunos estuda em escolas públicas, e até no sistema privado o Estado chega a subsidiar ao menos 80% dos custos. A taxa de desemprego, por sua vez, oscilou entre 2 e 4% nos últimos cinco anos. É a sonhada situação chamada de pleno emprego, da qual até temos nos aproximado.
Além de tudo isso, a Dinamarca é hoje um verdadeiro “papa-títulos”. Uma pesquisa da Universidade de Leicester indicou o país como o mais feliz do mundo. Três das variáveis principais do estudo eram nível de renda, acesso à saúde, e acesso à educação. O Índice Global da Paz, criado pela revista The Economist em parceria com várias universidades europeias, colocou a Dinamarca como o segundo país mais pacífico do mundo em 2009, atrás da Nova Zelândia. O IPC, Índice de Percepções da Corrupção, criado pela ONG Transparência Internacional, mostra também o país como o menos corrupto, em conjunto com a mesma Nova Zelândia, além da Suécia.
O Brasil dos nossos sonhos é aquele em que todos têm não somente a mesma oportunidade, mas a mesma qualidade nos serviços básicos, como a saúde e a educação. Um país de pleno emprego, pacífico e com irrisórios níveis de corrupção. Nosso modelo é a Dinamarca.
Claro, poderia ser o Canadá, a Suécia, ou a Noruega. Quem sabe a Alemanha, que é o único entre os 15 países mais populosos do mundo que está entre os 10 menos desiguais. Todos eles têm forte presença do Estado. Com educação e saúde públicas, universais, gratuitas e de qualidade. E liberdade, sabendo que a liberdade plena não existe e não convive com desigualdade.
O argumento contrário é sempre de que o Brasil tem carga tributária de países europeus e serviços de “países subdesenvolvidos”. Isso tem mudado, mas não deixa de ser verdade. Agora, a solução então é reduzir a carga para 10, 11%? Isso melhora em que a nossa eficiência? Assim, apenas estaríamos excluindo boa parte da população do acesso aos serviços que, bem ou mal, nosso Estado oferece. A solução para o SUS é não tê-lo? A saída para a educação é privatizá-la? Quem ganha e quem perde com isso?
A solução é, certamente, melhorar a qualidade dos serviços que o Estado brasileiro oferece. Isso demanda vontade e trabalho, mas demanda tempo. Não há mágica

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